Por Sami Nayef
A vergonha é um afeto que pode ser experimentado individualmente, mas também pode ser sustentado com orgulho pela multidão. Não é dificil fazer a afirmação que está na segunda parte dessa frase quando estamos vivendo na época onde a falta de vergonha é louvada, enaltecida e admirada como um sinal de coragem.
Pense nas imagens que circulam publicamente onde sujeitos “entram” nas escolas com o pretexto de “fiscalizar” a atuação de professores e o conteúdo programático. Eles são filmados, ou melhor, como acontece na maioria das vezes, filmam a si mesmos durante o ato sem nenhuma vergonha. Frédéric Gros em sua obra “Uma Filosofia da Vergonha“, apresenta um bom argumento sobre a crise nas escolas. Para ele se existe uma crise ela seria “acima de tudo, por falta de vergonha.” Agora pense nos artistas famosos divulgando Bets sem nenhum pudor. Pense nos racistas, machistas, xenófobos, homofóbicos. A falta de vergonha os atravessa e não os atinge.
Mas quem desejaria ser associado a essas situações que causam profunda vergonha em toda sociedade? A multidão! Milhões concordam com o que é feito, falado, divulgado e por isso a culpa quase nunca vem a tona! Costumava-se pensar que seria prudente ficar longe de sujeitos que demostram esse tipo de falta de vergonha, mas podemos facilmente observar que os que não têm vergonha e não se intimidam com o julgamento zombeteiro dos outros estão no topo da cadeia social. Como permitimos chegar a esse ponto?
Nossa época é também caracterizada por um forte movimento ideológico conhecido como ideologia da negação. Haveria essa epidemia de falta de vergonha, se ideologicamente não estivéssemos inclinados a negação? Observe as várias catástrofes que estão perigosamente próximas de todos nós. Você vê as noticias que praticamente as anunciam diariamente? Catástrofe climática, catástrofe artificial, eminência de guerra nuclear, novas pandemias que podem aparecer a qualquer momento, fome… sabemos sobre tudo isso mas preferimos não dar muita bola e continuamos a viver nossas vidas ordinárias indo ao trabalho, churrascos, igreja, medico, psicólogo, analista… sem muita preocupação. A vergonha é o grande marcador emocional da nossa inércia.
O que precisamos fazer então? Enfrenta-la! Para isso é necessário, e essa necessidade é a mais urgente de todas, ressuscitar nosso sentimento de vergonha. Aqueles que não sentem vergonha conseguem atrair a multidão que também deseja agir de forma brutal e sem restrições. Eles estão nos mais altos cargos, nas maiores empresas, são os mais endinheirados. São esses que precisam voltar a sentir culpa por suas palavras, suas ações, suas decisões, porque o “problema da falta de vergonha é que ela permite admitir abertamente todos os crimes sem sentir culpa”. Me permita deixar isso ainda mais claro usando como pano de fundo uma piada antiga em que um homem apontou para uma mulher caminhando pela rua e gritou: “Olhe para ela! Por baixo das roupas, ela está completamente nua!”
Sami Nayef é curioso, inquieto e psicólogo

