Por Sami Nayef
A Dupla vida de Véronique (1991) é nosso filme do mês de maio na sessão Perfeitos Estranhos. Fui vê-lo com nosso grupo de cinema e é um daqueles que faz questionar tudo, até a realidade. Seja qual for o ponto de vista em que se olhe para o filme, uma estranha sensação de déjà vu toma conta da percepção, afinal pode haver uma dúvida razoável sobre o fluxo da vida estra correndo em uma única realidade. O Paleontólogo evolucionista Stephen Jay Gould escreveu isso de uma forma tão direta: “Volte o filme da vida e jogue-o novamente. A história da evolução será totalmente diferente.”
O diretor é Krzysztof Kieślowski, um cineasta polonês em suas obras parece estar acostumado a levar seus expectadores a realidades sobrepostas. É uma realidade sempre em construção na sua visão, melhor, sempre inacabada. Assim ele posiciona aqueles que assistem suas películas de frente com o fundamento da liberdade de escolha. Você escolhe, você vive? O que prevalece após a escolha? Será que a mesma pessoa pode se redimir ao receber outra chance e repetir a escolha fatal? No universo inacabado de Kieślowski todas essas perguntas estão sendo formuladas. Ser salvo por repetidas tentativas pode parecer estranho, mas em um universo tão imperfeito e inacabado isso não soa tão absurdo assim.
Em A Dupla Vida de Véronique estamos diante de duas personagens que existem em uma “realidade dupla”, que estão vivendo suas vidas e fazendo suas escolhas, cada uma em seu país. A estranha sensação de que não estão sozinhas no mundo as acompanha e as duas possuem vocação comum. As escolhas que estão fazendo parecem estar em um fluxo multiforma em um tipo de entrelaçamento da vocação. Após quase se encontrarem, cada uma escolhe viver sua vocação de forma diferente. O filme está estruturado nessa escolha e em sempre parece nos colocar diante da questão sobre o que escolheríamos: a vocação ou uma vida mais ordinária.
Com as personagens entre o Desejo (vocação) e uma vida sem grandes riscos (calma e tranquila) que nega a verdadeira Causa de viver, a “dupla realidade” apresentada quase nós obriga a pensar sobre as escolhas que fazemos em nome de não correr riscos maiores. A repetição proposta por Kieślowski nos assombra diante das versões alternativas da realidade e a possiblidade de recebemos uma segunda chance e ainda assim não escolher o nosso Desejo.
The Double Life of Veronique – Wikipedia
Krzysztof Kieślowski – Wikipedia
Sami Nayef é curioso, inquieto e psicólogo

