Por Sami Nayef
Em um recém-descoberto documento freudiano temos um vislumbre de uma parte do pensamento político de Freud sob o contexto de uma Europa a beira do abismo no final dos anos 20 do século XX. Vou reproduzi-lo abaixo, porém, antes desejo chamar sua atenção para uma frase que irrompe na curta carta como um chamamento, um farol, na minha interpretação, a quem tem desejo pela psicanálise: ‘Eu amo aquele que deseja o impossível’
E facil lembrar dos ‘impossíveis’ de Freud e de como ele alertou que a prática pode não assegurar resultados satisfatórios (FREUD, 1937/1996, p. 265). Por isso não se pode educar perfeitamente, porque a criança resiste à simbolização. Não se pode governar de forma absoluta, porque o povo não é coerente. E não se pode analisar definitivamente, porque a verdade reside nas margens — onde o sujeito não é senhor em sua própria casa.
A psicanálise é marginal, no sentido de uma marginalidade da verdade, que aparece como ruptura, divisão, falta, emergindo em lapsos, sintomas e naquilo que escapa ao domínio. Espero que isso não seja encarado por quem quer que seja como um obstáculo para ‘Mover os Infernos’, já que precisamente o inferno se apresentaria a Freud naquele momento da história.
Não te parece que os mesmos fantasmas estão cada vez mais próximo? Qual então, é o papel da psicanálise hoje?
Eu lembro da ‘piada’, um tanto quanto macabra, descrita pelas palavras do próprio Jung quando este chegava com Freud a Nova York: ‘Eles não sabem que estamos trazendo a peste para eles.’ A psicanálise é a peste! Na percepção inconsciente de Freud apresentada nessa ‘piada’ podemos perceber o que a psicanálise não é. Não é o remédio, ou a cura. Rosilene Caramalac está correta quando por muitas vezes nos afirmou que a psicanálise é subversiva. Ela subverte a ordem por ser uma força disruptiva que traz em seu conhecimento um confronto que transcende a ideologia e faz do analista sujeito histórico e portador da verdade desse inconsciente. Quem diz estar ao lado da psicanálise pode encontrar justificativa na neutralidade diante de tempos obscuros?
Ler um documento inédito escrito por Freud em 2026 só é possivel por uma conjunção de fatores que não tenho tempo para discutir aqui². Imagine apostar que isso seria possivel há décadas? Impossível é apenas algo que ainda não se materializou!
Abaixo o documento³
1º de novembro de 1929
PROF. Dr. FREUD — VIENA, 9º DISTRITO, BERGASSE 19
Prezado Senhor
O Senhor pensa ser provável que eu não realizasse um desejo que manifestou, se estou em condições disso e se me custa um sacrifício tão pequeno?”
A sua ideia de uma Europa unificada não me dá sossego desde que dela ouvi falar pela primeira vez, sem falar na minha certeza de que não viverei para ver a sua realização e na minha dúvida sobre se algum outro habitante vivo desta terra estará em melhores condições como resultado da sua criação.
Com frequência, quando penso no Senhor, vêm-me à mente as palavras de Manto, da Noite Clássica de Walpurgis:
»Amo aquele que deseja o impossível«.
Mas isso não se presta à propaganda, para a qual, de qualquer forma, sou totalmente inadequado.
Quando ler meu próximo opúsculo¹, “O Mal-Estar na Civilização”, suponha que a expectativa com a qual a última frase conclui se refere à sua Pan-Europa.
Com sincero devotamento
Seu Freud
¹FREUD, Sigmund. Análise terminável e interminável. Edição Standard das
Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, v. XXIII, 1996, p. 265
² Richard Coudenhove-Kalergi (1958), Eine Idee erobert Europa. Meine Lebenserinnerungen, Viena/Munique/Basileia: Verlag Kurt Desch, pp. 216 e seguintes.
³Leia o original escrito por Pessler_Monika___I_love_him_who.pdf

