Por Sueli Ignoti
A história dessa menina começou muito antes de seu nascimento, quando outra
menina, brincando de casinha, sonhou ter uma filha.
A menina sonhadora cresceu.
Tornou-se mulher.
Dividiu seu sonho com o pai da menina dessa história.
A menina sonhada chegou mostrando que não viera sob encomenda para o sonho
materno: seus cabelos não eram da cor esperada, seus olhos, também não.
E seu jeito, bem, seu jeito surpreenderia, a cada dia, no percurso que a menina com a mãe
faria.
Logo a menina já não queria os cabelos presos como a mãe gostava. E já não deixava
que alguém os cortasse só porque a mãe desejava. E a roupa era aquela que escolhia. Mas
apreciava o que a mãe aprovava.
O armário da mãe a fascinava. Pedia para usar suas camisolas, seus sapatos, lenços e
casacos.
Por volta dos cinco anos, para balançar as poucas certezas que à mãe restavam, a
menina pediu para ficar sozinha no consultório da dentista. Então criança não precisa ter
medo de dentista?
Quanto sentimento misturado.
Mais da mãe que da menina.
Bom ver que menina sozinha faz muita coisa.
Mas, precisa essa dor, tão doida quanto doída, provocada pela passagem do tempo?
E de onde brota a lembrança de uma voz dizendo que os filhos devem ser criados para
o mundo? Sua menina faz parte dessa teoria inventada por algum maluco que desconhece a
dor da separação?
Mãe, meio embaralhada, percebe sem querer que a menina pede sem perceber, que a
ensine ser mulher.
Mas isso se ensina?
Basta orientar sobre batom, brincos e anéis?
Muitas vezes mãe nem sabe que sabe.
Ainda assim, aposta em seu amor pela menina.
Mas, é preciso pagar pela aposta.
Mãe descobre que perguntas fazem menina calar.
Como saber sem perguntar?
O tempo não dá tempo para a mãe saber.
Menina e mãe temem estar se perdendo nos atalhos do caminho, quando menina pensa
que pode esconder tudo da mãe.
Mãe tem parceria com bruxa ou anjo?
Como descobre as pegadas da menina, para sempre chegar um passo antes do perigo?
Menina desiste de saber como mãe consegue se fazer presente.
Descobre então que mãe aguenta a verdade, ainda que não faça parte do sonho.
Mãe sabe sem saber, quanto mais sua menina se rebela, mais dela precisa para ser
mulher.
Certeza de mãe que não se abala: embalará sua menina quando não souber o que fazer.
Mas tem muito mais que mãe não sabe.
Não imagina que ensina com suas histórias de menina, moça, mulher.
Menina ouve atenta.
Menina passa a contar o que nunca contou quando se perdia entre tantas perguntas.
Conversas guardadas deixam de ser peso no coração da menina.
Por que mãe, que parece saber tudo algumas vezes e não saber nada tantas outras, se
interessa por conversa de menina?
A menina teima em não perceber que o tempo, que para ela passou voando, não parou
para a mãe.
Menina acha mãe cada dia mais linda.
E descobre que também ensina mãe.
Nem pensa que mãe aprende com ela desde sempre.
Menina brinca de ser mãe da mãe.
Diz que entende de cabelos, maquiagem e penduricalhos que enfeitam mãe.
Ajuda mãe ser mulher para a festa e a viagem.
Menina que reclamava por não caber em certos espaços da mãe descobre que também
tem outras coisas a fazer.
Menina quer espaços onde não cabe mãe.
Mãe chora de puro contentamento.
Menina cresceu!
Que escolhas menina crescida fará?
Mãe renova sua aposta…
Sueli Ignoti é psicanalista e escritora.

