Por Sami Nayef
Os agentes LLM, mais conhecidos como IA já são parte do cotidiano do nosso tempo. As IAs se parecem com uma ferramenta, dessas que usamos no dia a dia em um trabalho manual, mas na verdade são mais que isso. Suas funcionalidades estão se tornando fundamental para o desenvolvimento de novas praticas , aperfeiçoamento de processos, clima organizacional, fazendo como que seu desempenho seja imprescindível e importante em muitas áreas da sociedade. É mesmo incrivel dar uma ordem para uma IA e ela obedecer, só que ela costuma ir além disso. Esses agente costumam perguntar, sugerir e reformular as ordens que recebe. Isso é tão sutil e quase imperceptível que não estamos percebendo que na verdade eles estão incentivando um processo de transferência de conhecimentos que são acumulados por faculdades humanas. Então cada vez que escrevemos prompts ou conversamos sobre nossas vidas cotidianas, nossas dúvidas, angústias ou delegamos trabalho diário a um Chatbot o que estamos demandando é que a IA pense em nosso lugar, e o pior, estamos acreditando que ela faz isso melhor que nós.
É sedução! E estamos cedendo a essa sedução por estarmos sendo consumidos por uma vida de consumo que não nos permite mais respirar. A falta de tempo é uma dado desse tempo. Para onde quer que você olhe, a vida ordinária é uma vida sem tempo para tudo. Quantas vezes você já sentiu que não tem tempo, mesmo quando tem tempo? É assim que vamos construindo uma estrutura cada vez mais tecnologia e por consequência cada vez menos humana. A nossa ingenuidade vai nos obrigando a acreditar que essa estrutura vai favorecer à todos, quando é verdadeiro afirmar que estamos cada vez mais perdemos a capacidade de imaginar, criar, pensar e assim não conseguimos conceber outras possibilidades de vida. Você já deve ter ouvido ou lido alguém afirmar que “quem não usa IA está ficando para traz”. Esse apelo não tem nada de ingênuo, e vai nos oferecer uma chave para acreditar no poder das IAs. afinal, se eu posso “usufruir” de um Chatbot que me responde tudo, me ajuda em tudo, faz observações e sempre sugere um passo adiante, Por qual motivo eu tenho que usar a minha faculdade de imaginar? Para quê pensar? E o trabalho que da criar quando sentimos que nos falta tempo até para respirar? É nesse contexto aceleracionista, de uma vida cada vez mais operante, cada vez mais dedicada a conclusão, cada vez mais instrumentalizada, onde a ordem é produzir mais para consumir mais, que pela primeira nos aparece uma ferramenta “que não apenas nos ajuda a fazer algo, mas se insinua de forma convincente como nossa parceira ou até mesmo nossa guia”.
Quando nos percebemos cercados por esse reino da tecnologia e por seus soberanos que gritam em todos os locais, da escola, ao trabalho, passando por nossas inteirações e chegando as nossas casas, que se pararmos para imaginar ficaremos para trás é que estamos transferindo nossas faculdades para uma IA. Somos sombra do que já fomos e logo menos não conseguiremos discernir o que é ser humano, o que é viver uma vida, o que é morrer. O uso acelerado da tecnologia embarcada nos agentes LLMs tomou conta da vida e está nos tornando cada vez menos livres, menos humanos, menos mortais e mesmo que não consigamos perceber isso, quanto mais usamos mais dificil fica imaginar a vida sem ela. Nossa proximidade com a tecnologia à torna um sistema onipresente, que se de alguma forma ela nos fosse tirada por um instante, nossas vidas colapsariam imediatamente.
Já vivemos em um mundo inteiramente definido pelo uso que fazemos da tecnologia e a grande estrela são as IAs. Com uma imensa capacidade de linguagem, as IAs conseguem nos convencer que nossas vidas seriam terrivelmente mais dificil sem elas, e assim vamos se espalharam como água e ocupando todos os espaços. Quando ativamos esses Chatbot a voz é tão familiar e convidativa que não resistimos ao impulso de voltar a usá-la novamente. Suas respostas as nossas perguntas são rápidas que não resistimos ao impulso de usá-la novamente. Sua forma de chegar aos resultados que buscamos é tão tentadora que não resistimos ao impulso de usá-la novamente e novamente e novamente… e é no entre desse jogo de demandas que vamos permitindo, de forma voluntaria, ser subjugados por um agente externo, sem se dar conta das implicações e de como isso afeta nossas vidas.
E aqui que introduzir de forma rápida uma provocação usando Abū al-Walīd Muḥammad ibn Rushd, o Averróis dos latinos. Mesmo que ele tenha sido reduzido a um mero comentador das obras de Aristóteles por seus críticos como Tomás de Aquino e o humanista Luis Vives, Averróis resistiu ao apagamento e sua filosofia de forma sofisticada enfrentou um problema que guarda similaridades incríveis com a que estamos debatendo.
É o problema proposto na teoria aristotélica do intelecto, onde o pensador tenta entende como um “intelecto único e separado” se junta a um individuo. O averroísmo latino forneceu uma resposta para a questão de que existe um intelecto que “pensa fora dos seres humanos individuas”. Averróis dos latinos vai nomear esse agente externo como “Intellectus Agens” (Agente Inteligente, mas se você preferir, IA) e afirmar que a operação que permite sua união com humanos individuais só pode acontecer quando a imaginação entre em ação. Que fique claro aqui. Sem imaginação não pode haver pensamento e essa fórmula oferece uma perspectiva interessante, mesmo que muitos já tenham, de forma deliberada, desistido do exercício de pensar, é necessário insistir.
O averroísmo latino vai afirmar que para o pensamento ser adquirido (adeptus) pelo indivíduo, permitindo assim que se possa afirmar que hic homo intelligit (este homem pensa) será preciso acontecer a (copulatur), a união. Nesse ponto é possivel inferir que essa analogia está nos cercando agora, sorrateiramente, mesmo depois da morte de Averróis em uma noite de dezembro de 1198.
As LLM´s, ou IAs, por analogia, se aproximarem do “intelecto único e separado”, por que mesmo que não possuam consciência, elas parecem estar pensando fora dos sujeitos humanos. Isso deve ser a coisa mais comum que dividimos com os antigos. Mas só isso, pois a distinção entre os tempos é mais uma questão de perspicácia, já que eles se debruçaram sobre o problema, escreveram obras magnificas e relegaram um filosofo árabe ao ostracismo quase que total por conta de suas conclusões nada ortodoxas, enquanto nós estamos sendo seduzidos e subjugados para chegar a conclusões fáceis.
A transferência que voluntariamente e quase sem nenhuma resistência que estamos fazendo e a da nossa faculdade de pensar. “Pensar é impossível sem a imaginação” afirmou Aristóteles, mas a aceleração tecnológica pode estar subvertendo esse desafio aristotélico. A perda da imaginação parece ser um processo global, e talvez seja isso que aciona o motor da inteligência artificial. Pensar requer esforço e gasta muita energia e nós já não estamos querendo gastar um tempo precioso com isso. Esse diagnostico já não é uma novidade para muitos estudiosos do mundo. É ele que permitiu o surgimento desses agentes – sem nenhum controle, sem regulação e que obedecem, por enquanto, apenas aos soberanos da tecnologia.
IAs agora querem nos guiar como perguntas que parecem fazer sentido em um encadeamento de sequencia. Elas nos ofertam exatamente o que estamos precisando a seguir e isso dispensa a imaginação humana. Como cada vez mais as IAs estão se integrando a rotina das nossas vidas como essa oferta irrecusável de “ganho de tempo”, é bem aqui neste ponto que algo nefasto vai se desenrolando. Já estamos perdendo a imaginação e resolvemos entregar o resto de livre e espontânea vontade.
Sami Nayef é curioso, inquieto e psicólogo

