Por Sueli Ignoti
Tempo… Tempo que registra na areia a infinidade das coisas que não fazem diferença e escreve na carne o que continua sendo degustado com a força de todos os sentidos, para o bem ou para o mal, e guardado no balaio das lembranças que nunca transbordam.
Aconteceu durante a pandemia, no período que lidamos com o maior número de perdas de pessoas queridas. Eu e meu esposo, em total isolamento, contávamos um com o outro. Ele escolheu sair para a rua, muitas vezes com duas máscaras, para resolver o imprescindível. Estávamos com 79 anos na época. Juntos por bem mais da metade de nossas vidas.
Por que não dividi com ele essa bobagem, para rirmos juntos!? Nós ríamos muito de nós mesmos. Sempre foi assim. Em nosso tempo de namoro ele dizia que eu era a sua menina, dona da gargalhada mais gostosa que ele já tinha ouvido e que ele faria o impossível para me ouvir gargalhar por toda a vida. Deliciosa e espontaneamente cumpriu a promessa. Longe de termos a história perfeita, tivemos a nossa história. Paralelo ao acréscimo dos anos nos divertíamos cada vez mais com nossas trapalhadas, esquecimentos, incidentes do cotidiano. Quantas vezes, à mesa do café da manhã falávamos de nossos sonhos acordados, ainda mais confusos que aqueles que produzíamos dormindo. Muito além do timbre de nosso riso, ficavam o gosto, o cheiro, o olhar, o toque da experiência incontável. Comemoramos Bodas de Ouro aos 50 anos do início do namoro, porque assim escolhemos. Esperar mais 11 anos para brindar com os amigos que estiveram em nosso casamento implicava no risco de qualquer um de nós já não estar. O privilégio da idade avançada nos brinda com ganhos inimagináveis e perdas indesejáveis.
Voltemos ao motivo da gargalhada que faltou. Durante todo o tempo da pandemia ele tinha um medo muito maior que o meu de ser contaminado. Dizia que não podíamos perder um ao outro justo naquele momento da história porque tínhamos muito a escrever juntos. Ainda que tivéssemos contato com pouquíssimas pessoas e todos os cuidados, ele suspendeu totalmente o beijo na boca, o que sempre fez parte de nosso carinho, a qualquer hora, em qualquer lugar. Do selinho ao beijo cinematográfico sem plateia. Aprendemos com a vida que a sexualidade do idoso depende primeiro de cada um e do que inventa com seu corpo e seu desejo. Dependendo depois de cada casal e o que estiver bem para os dois. E isso nos autoriza a nomear a intimidade como sempre o fizemos, com seus apelidos carinhosos, segredos nossos. Por falar nisso lembro de, muito antes da pandemia, dizer entre amigas que fazíamos amor e rirem afirmando que ninguém na nossa idade ainda fazia amor. Da ordem do que não vale a perda de tempo para explicar. Cada um faz amor de seu jeito, e onde estaria o juiz? Libido corre por outras veias…
Pois muito bem! Quando passamos a fazer amor sem beijo na boca fiquei muito irritada. Lembrei-me da Júlia Roberts em Uma linda mulher. Eu não tinha virado uma profissional do sexo. Tentei conversar mas não ressoou.
Certa manhã acordei com mais raiva dele que do Corona Vírus. Ao terminar a higiene bucal – um ritual imenso cobrado por meu dentista também de décadas – não encontrar o protetor da escova de dentes foi suficiente para que nosso banheiro fosse agraciado com a sonoridade de um palavrão. Eu perdia tudo. Desisti. Ao colocar a escova no devido lugar percebi que minha escova lá estava, com seu protetor, desde a noite anterior…
Ele estava no quarto. Sufoquei minha gargalhada gostosa. Que vingança!
Dias depois, fizemos amor como antigamente – antes da pandemia. O beijo na boca, decretado pela urgência do desejo voltou sem carência de conversa. De manhã ele precisou sair mais cedo e me deixou dormindo. Na mesinha de cabeceira um dinheiro meu que estava com ele, um troco sem importância.
Olhei… Pensei… Ri… Fotografei e mandei para ele acompanhado de legenda: Com beijo na boca é muito mais caro.
Disso rimos muito. Virou brincadeira entre nós enquanto contamos um com o outro…
Sueli Ignoti é psicanalista e escritora.

