Por Sami Nayef
Nessa nova fase do colonialismo, oligarcas tecnológicos pretendem controlar todo o espaço de interação social. Vamos entregar a eles tudo?
Não se engane! Um dos campos de batalha mais importante do mundo é onde está a disputa pela hegemonia e o controle da internet. As forças que exploram, discriminam e criam dependência de tecnologia estão cada vez mais camufladas, ficando longe dos olhos do grande público. Eles escondem sua nudez vergonhosa enquanto apresentam seu Semblante – nos termos de Lacan – de companhia, cuidado, intimidade, cultura, oportunidade, desenvolvimento, flexibilidade, comunidade, missão, produtividade e um senso de segurança. Esse é o truque! A face apresentada ao público insere um mundo de significado, enquanto a verdadeira face permanece oculta.
No ocidente, os oligarcas tecnológicos abriram uma nova frente de luta nessa batalha. O objetivo não é apenas lucro, isso todo grande capitalista busca e realiza. O objetivo maior é vencer essa luta, dominar e controlar totalmente o espaço social por onde os discursos circulam, para conseguir um poder que não pode ser alcançado por regulações ou questionado. Esse poder é o poder de manipular a realidade e altera-la gradativamente usando algoritmos. Essa é a logica a qual todos devem se submeter.
Como impedir que esses oligarcas consigam executar esse plano? A grande luta é fazer pessoas comuns perceberem que bens universais e não negociáveis. Alguém pode imaginar viver sem respirar? Ou sem a luz do sol? Sem agua? Todos esse bens, mesmo que naturais, pertencem a todos. A internet precisa ser percebida como um bem da humanidade e não de poucas pessoas.
Quando se trata desse espaço de interação e criação da vida, o empoderamento e a isenção de qualquer supervisão pública favorece as oligarquias tecnológicas. Essa é uma situação curiosa por não guardar muitas semelhanças com as empresas de antigos capitalista liberais. Na verdade, a sensação, quando se analisa suas posições, é que parecem desprezar aqueles que apenas exploram as massas buscando maximizar o lucro. As grandes empresas tradicionais do capitalismo ainda são escrutinadas e algumas vezes e possivel expor ao público seus atos de corrupção.
A isenção desse escrutino significa que ficará cada vez mais dificil perceber a extensão dos avanços dos sistemas de IA, por exemplo, e como esses sistemas podem controlar o comportamento na internet. Isso foi chamado pelo ex-ministro das finanças da Grécia, Yanis Varoufakis de Tecnofeudalismo. “Nessa nova fase do colonialismo, as razões são claras. A resistência terá que ser igualmente importante. Elas envolvem a recusa em esperar por soluções de um arcabouço institucional interestadual que simplesmente não existe mais e a consciência da urgência de reconstituir alianças em uma nova luta global anticolonial”, como escreveu Vladimir Safatle
Em um cenário com essa liberdade, empresas de tecnologia tem as condições apropriadas para criar uma arquitetura que pode permitir o controle e manipulação de um dos espaços mais vitais da nossa vida: a internet! Essa manipulação vai aumentar o domínio tecnológico sobre a sociedade. Veja como já não causa nenhum tipo de reação a informação que circula sobre IAs substituindo humanos em alguns tipos de trabalho. Isso está acontecendo e ninguém é chamado para explicar como essa tecnologia é treinada e programada.
Muitos já perceberam que os ‘poderes de contenção’ estão cada vez mais enfraquecidos e as instituições que governam nossa sociedade estão cada vez mais perdendo o rumo e o significado. Os oligarcas da tecnologia se aproveitam desse cenário de desintegração e pregam abertamente “que liberdade e democracia não são compatíveis”. Esse tipo de postura pode significar a tentativa de uma regulação da internet, redes sociais ou IAs, que responsabilizasse essas empresas seria encarado como censura. Essas empresas usam seus algoritmos para espalhar a ideia de que é preciso se libertar da burocracia estatal e arrebentar todas as amarras que os impedem de levar a humanidade a seu proximo passo na evolução, mesmo que isso signifique sacrificar a democracia.
As novas oligarquias estão criando um cenário de anomia total, com o objetivo de suspender a lei, ao mesmo tempo em que afirmam que ela está sendo cumprida por suas empresas. O grande entrave para essas empresas é que essa ideia não pode sobreviver por muito tempo muito sem uma base forte e coesa.
Controlar os espaços digitais de convivência, discussão, compra e venda de produtos, informação, dominar e manipular sem ser cobrado por eventuais desvios requer um aceno a fé, uma referência à espiritualidade cristã. Mobilizando os medos mais profundos na sociedade, que é em sua maioria religiosa e cristã, com escatologias sobre o fim do mundo, a chegada do anticristo e a “luta entre o bem e mal”, vão se criando os inimigos do avanço da humanidade em direção a seu paraíso prometido. O perigo está onde ele não está.
Controlar os espaços digitais de convivência, discussão, compra e venda de produtos, informação serve ao propósito de dominar e manipular sem ser cobrado por eventuais desvios. Para que isso seja possivel um aceno a fé, uma referência à espiritualidade cristã, uma luta entre o bem e o mal é sempre bem-vinda. Para mobilizar os medos mais profundos em uma sociedade que é em sua maioria religiosa e cristã, as escatologias sobre o fim do mundo, a chegada do anticristo e a “luta entre o bem e mal” cria os inimigos do avanço da humanidade em direção a seu paraíso prometido. As novas oligarquias estão convencendo que o perigo está onde ele não está.
Toda essa luta parece ser para criar, mesmo que provisoriamente, um estado “sem lei”, uma anomía institucional que poderá sustentar e, manter um estado de guerra permanente, não mais a guerra nuclear, mais um novo tipo de guerra, que tem no desenvolvimento dos softwares sua grande arma. É o Semblante perfeito! As IAs podem nos iludir realizando ‘seus sinais e maravilhas”, enquanto os algoritmos convencem o público que os oligarcas tecnológicos estão travando uma batalha contra o mal maior que quer impedir o desenvolvimento da humanidade. Esse tipo de luta messiânica bloqueia qualquer discussão democrática sobre quem deve ter o controle da tecnologia, ou pelo menos se essa deve ser vigiada mais de perto por instituições independentes subordinadas ao interesse e bem-estar dos humanos. As críticas e dúvidas, sempre que levantadas, são caracterizadas como uma tentativa de censura. Enquanto isso o controle do espaço onde a realidade e produzida está subordinado a poucos senhores que vão impondo nesse espaço modelos definidos à ser imitados sob a supervisão e controle dos algoritmos. Não há pluralidade ou liberdade nesse ambiente porque a arquitetura dos algoritmos exerce uma forte regulação sobre o desejo.
Aqui é bom lembramos de Jacques Lacan, que propõe a percepção de que desejo é desejo do Outro. Então o meu desejo está sempre direcionado para fora – desejo outro ser humano e quero ser desejado por outro ser humano, ser o objeto de desejo dele/dela. Essa interpretação nos leva a afirmação de que eu desejo o que outro ser humano deseja – e esse é o momento que introduz competição e ressentimento. Se o desejo está sendo manipulado, controlado ou for mimetizado por um algoritmo o simbólico pode vir a se tornar figurativo e as mediações realizadas, por exemplo, pelos governos eleitos pela vontade popular, instituições que “cuidam” do bem comum, e, em última análise, a religião, perdem sua capacidade de estruturar a realidade.
Lacan também desenvolveu em sua teoria a ideia de grande Outro. O grande Outro tradicional é aquela substância simbólica das interações sociais — a rede de regras, normas e autorizações que estruturam nossa realidade — ou seja, o grande Outro é própria ordem simbólica. Como as interações agora também são feitas dentro do espaço virtual que denominamos de internet, ele também está sendo esmagado pela manipulação digital de forma brutal. Substituir o grande Outro tradicional deixou de ser uma ideia utópica para se tornar uma realidade sustentável dentro da nova arquitetura da linguagem.
Essa anomia/anarquia que o avanço da tecnologia sem regulação está moldando cria a oportunidade de exercer um controle maior sobre a sociedade por meio dos algoritmos, redes sociais ou pelo desenvolvimento das IAs. Isso pode estar dando um poder ainda não mensurado a quem controla o desenvolvimento dessa tecnologia. É esse controle que denomina a internet como um Semblante de “liberdade de expressão irrestrito”, ao mesmo tempo que exerce sobre ela um controle rígido usando “políticas da comunidade”.
Enfrentaremos a maior e mais importante luta do nosso tempo como uma simples disputa ideológica, sem perceber que quem controlar a internet controlará o futuro? Estamos falando de sobrevivência.

