“As fantasias sombrias que atribuímos aos outros fazem parte da nossa própria identidade’.
Gosto, as vezes, de pensar sobre isso, e que, oras, é isso que fazemos o tempo todo. Como personagens-observadores acompanhando o desenrolar dos nossos próprios filmes, onde no final sempre há duas leituras quase que simetricamente opostas, para que possamos atribuir a nossa fantasia o ‘por que’, ‘como’, ‘quando’. Então podemos nos perguntar se vale a pena lembrar da última vez que vimos um filme juntos? Do que lembramos? Do que falamos ou deixamos de falar? Por que importa?
Fazia um tempo que não fazíamos isso – observar as fantasias mais sombrias que atribuímos a outros. Os outros que vivem o que não conseguimos viver, falam o que não conseguimos falar, assumem o que não conseguimos assumir… momento de catarse, onde é possivel se livrar das ilusões e assumir a realidade como ela é.
‘Pequenas cartas obscenas’, o filme de hoje é baseado em uma historia que estava perdida no tempo e realmente aconteceu no início do século XX. Três mulheres em um mundo fragmentado pela guerra onde se busca qualquer afirmação que sustente a dolorosa realidade. A vida entrelaçada por machismos, misóginas e cartas. Sim, cartas! Nós que já quase esquecemos como elas são e o poder que elas podem conter em suas linhas. As cartas, sem nenhum pudor, gritam o que não se pode dizer, contém o desejo que não pode mais não ser vivido. Quem as escreve? Quem as envia? Qual o seu destino?
Como, por que e quando terminamos a fase do Cine Pipoca e depois Cine Genaro é algo preso pelos acontecimentos que não mais controlamos. É a realidade que se impõe. Agora que o luto passou podemos comtemplar o estranhamento, a inquietude, o desconforto que alguns filmes provocam. Podemos encarar isso? Sim, podemos, porque gostamos mesmo é de coçar onde está a sarna. E é por isso que o cinema, o teatro, a literatura, as artes são tão sublimes, incríveis e necessários. É preciso aprecia-los.

